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sexta-feira, 30 de março de 2012





Egocentrismo


O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho.
Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei.
O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade os olhos, o barulho... Maldito!
Quero silêncio de música escolhida. Quero o silêncio de livro preferido, quero o silêncio de amigos queridos por perto, quero o silêncio de estar em casa, em família. Quero o silêncio da agenda fechada. O silêncio de sonhar de olhos abertos, de escolher o que contemplar, quero o silêncio do sol de outono sobre a pele...
Quero discrição, segredo, intimidade.
Quero esquecimento.
Quero lembrança.
Quero de novo o mesmo.
Quero! E-go-ís-ti-ca-men-te!
Um outro lugar que não seja aqui.

sábado, 24 de setembro de 2011

Oásis

Jogo-me numa cadeira de balanço imaginária, em uma varanda imaginária, em frente a um jardim que fica diante de um mar azul imaginário. Sinto o cheiro da brisa e os minúsculos respingos do mar. Abro os braços, fecho os olhos, sorrio feliz.

Giro.

Em volta somente a imensidão, imagino. Respiro fundo. O ar fresco alimenta delicadamente tudo em mim. Estou plena, imagino. Nada falta. Ao fundo ouço realmente Califórnia Dreamin’ com Rosa Maria. Viajo sem vontade de voltar. Descanso, então.

domingo, 4 de setembro de 2011

Acordos do tempo






_Filho, cuidado! Você vai se machucar...
_Pai, o senhor não pode mais comer isso!
_É assim que se faz. Tenta você agora.
_Não, pai. É muito pesado. Você não tem mais idade...
_ Deixa, filho, que o papai pega.
_ Já tomou seu remédio da pressão?
_ Já fez a lição?
_ Tá na hora de dormir.
_ Não consegue dormir, pai?
_ Durma bem, filho!
_ Durma bem, pai!

domingo, 26 de junho de 2011

Aos quarenta e....

Nasci em 27 de junho, numa rua repleta de sítios e árvores, às 23 horas numa casa na rua Regina de Moraes 111 ou Cova da onça como os moradores do bairro até hoje a chamam.

Com certeza herdei um pouco da quietude daquele lugar, daquela paz de ouvir murmúrios de riachos, cantos de bem-te-vis e outros tão sutis que nunca pude definir.

A casa onde nasci ainda existe. Morei pouco tempo nela, mas adorava passear por aquela rua sem saída que terminava sob um pedaço lindo de mata atlântica. Cansei de ficar na ponta dos pés tentando ver o que havia por trás das cercas vivas que encobriam casas abastadas de gente que nunca conheci. Era um lugar perfeito para as minhas crises adolescentes, meu ninho.

Quando eu não me entendia, inconscientemente, procurava a minha rua, o meu início.

Passaram-se mais anos do que eu gostaria; a rua agora está cheia de condomínios, entretanto meu olhar sobre ela não mudou. Ainda me vejo com chinelos de dedo caminhando por seu solo barrento, desnivelado, cheio de pedrinhas, misturando sonhos e realidade.

Turbulência cheia de vida!

Hoje, a rua em que moro é asfaltada. As pedras e os desníveis são outros, porém minha janela abre-se para dois grandes sítios cheios de pássaros, árvores, plantas e muitos barulhinhos que ainda não sei definir.

O tempo passou, mas felizmente, presenteou-me com a sabedoria dos anos.
Paz cheia de vida!

domingo, 12 de junho de 2011

Dia dos namorados




Para quem tem


Se você tem namorado, desses que intimamente sabe que é definitivo é par para sempre, encha-o de carinho neste dia. Não economize. Mande flores, arrisque-se em uma declaração de amor bem melosa. Faça-o sentir-se importante, único, como certamente é. Surpreenda-o com uma saudável e criativa loucura de amor.

Se ele for passageiro, transforme este dia numa agradável recordação, daquelas que são ótimas pra curtir em domingos mornos à tarde ou em dias de chuva, aconchegado no sofá diante da tv. Seja terna, carinhosa. Saiba que o outro também quer um dia especial, parecido com cena de filme romântico ou final de novela.
Deixe uma marca indelével dessas que a gente adora contar como foi que adquiriu. Valorize quem está contigo ainda que por apenas um dia dos namorados.

Se o seu par já atravessou com você vários dias dos namorados, reúna os melhores momentos numa bela coletânea, recrie os mais marcantes, dance novamente aquela música, repita todas as juras de amor e presenteiem-se com a felicidade de terem vencido percalços, desavenças, desilusões. De terem vencido o tempo! Recomecem a própria história, ela já provou que vale a pena.

Para quem não tem

Anime-se! H á milhares de pessoas por aí, dobrando as esquinas da vida todos os dias, esperando encontrar o seu grande amor!

Sonhe! Não tenha medo. É desta maneira que a realidade toma forma. Portanto capriche nos detalhes, ouse nos desejos: a próxima esquina pode ser a sua.

Ame-se, presenteie-se. Se você estiver de bem consigo mesma, estará pronta, disposta, disponível para amar.


Seja! Esteja feliz com ou sem. O melhor, certamente, ainda está por vir!

domingo, 8 de maio de 2011

voraz



Fico observando uma lagartixa colada no vidro da janela.

Minha mãe diria que ela não tem modos! Arreganhada desse jeito, toda exposta.

Minha filha se arrepiaria, sentiria medo, nojo. Não olharia.

Eu a observo. Será que ela sabe que está assim tão exposta, tão vulnerável?

A lagartixa, no entanto, tem os olhos fitos nos insetos pululando à luz da lua. Talvez nem se interesse em saber a nossa opinião. Sem vergonha nenhuma, deseja.

Dane-se todo o resto!


De vez em quando me serviria ser uma lagartixa... Completamente entregue aos meus desejos. Grudada na tua janela despudoradamente.

domingo, 1 de maio de 2011

Flash Back


Ouvir música sempre me fez viajar. Desde menina, perco horas sonhando, criando cenas com trilhas sonoras. A música é parte da minha própria história.

Minha mãe cantarolava Dolores Duran, Agostinho dos Santos, Ataulfo Alves; meu pai, Nélson Gonçalves. Engraçado que mesmo estando em plenos anos 70, eu gostava. Saboreava aqueles versos ainda que naquele momento não tivessem nada a ver comigo.

Guardei-os todos na memória. Até hoje sei cantá-los.

Lembro-me, também, de ouvir nas manhãs de domingo, um programa do governo sobre a história da MPB. Fico pensando que tipo de criança eu era.

A verdade é que na minha lembrança há músicas de todos os tipos, gêneros, letras... Muitas vezes, meus irmãos e eu lustrávamos o chão da nossa casa dançando disco music. Comunicávamos arbitrariamente nossa alegria com todo o bairro, colocando duas caixas de som na janela e elevando o volume ao máximo. Ninguém reclamava.

Mais tarde, já adolescente, minhas paixões sempre tinham uma canção preferida: lenta é claro! Pra fazer chorar aos montes. Normalmente temas de novela.

Saindo da adolescência, trabalhei por nove anos em rádio. Que paraíso!

Hoje, enquanto escrevo, ouço música. Média batida, porque não sofro de amor perdido, mas também não ando por aí saltitando.

Tudo tem seu tempo. O meu, tem acompanhamento musical.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Sons

Aleeeeeeeeeeex, Aleeeeeeeeeeeeeeeex!!!
O grito ecoava nas tardes mornas e preguiçosas da Barra, num tempo em que era possível ouvir os gritos das mães em busca dos filhos perdidos para a pelada em campinho de terra com trave de madeira ou para a pipa:
– Bota outraaaaa !
Não havia tantos prédios. Dona Efigênia morava em um e conversava animadamente com as vizinhas que viviam nas casas térreas próximas ao seu sobrado.Lá de cima, quase sem querer, ostentava sua condição social de remediada!
Assim era a Barra. Os sons percorriam o bairro com uma liberdade inigualável. Ouviam-se longe as discussões em família, as palmadas em alguma criança travessa, o bater de roupas nas bordas dos tanques ou nas tábuas postas no quintal. Ouvia-se o rádio. Alto. Música para todos os gostos. E que gosto!
Havia também as serras das carpintarias portuguesas ou espanholas. Bairro cheio desses. A música espalhada pela torre da igreja todos os dias:
-"Alô! Bom dia!Oi como vai você?”... e o sino que quase nunca tocava. Os apitos avisando a hora. E principalmente o rotineiro susto com a explosão da pedreira. Sempre à mesma hora. Sempre assustador.
Outros sons percorriam o bairro nos fins de semana. Na verdade, as quinta-feiras tornavam-se um pouco diferentes e prenunciavam o movimento do fim–de-semana. Eram as festas. Começávamos a ouvir a agonia dos leitões que seriam preparados, as fofocas sobre o bolo a quantidade de docinhos e salgadinhos. Aumentavam as idas e vindas à costureira. Lá o barulho era outro: o farfalhar de tecidos, os gritos contidos com as alfinetadas , a máquina de costura... os últimos comentários sobre a festa. Se fosse casamento, ficávamos sabendo onde seria a Lua de mel, quem daria o quê de presente, já que estes eram entregues na festa.E uma conversa entre os dentes sobre a noite de núpcias.
Na sexta, os homens começavam a estender um toldo no quintal da noiva, chegavam as mesas alugadas e os barris de chope. Festa boa tinha que ter barril de chope. Se possível vários deles. Também era dia de manicure e mais fofoca, à noite testava-se o som e a animação ganhava o clímax. No sábado, as mulheres todas na casa da noiva ultimavam os preparativos: toalhas, arranjos, fatiavam a carne do pobre leitão e preparavam a maionese feita em casa e sem salmonela. Feito, todas corriam para o salão. Era a vez dos cabelos. Risos cortavam à tarde de sábado. As mais atrasadas saíam correndo ostentando cabelo de festa e roupa do dia-a-dia. Mas as noivas sempre atrasavam...e o barulho dos brincos e colares sacudidos pelo movimento ansioso de pescoços preocupados virando incessantemente para olhar a porta da igreja. Nestas horas, alguém sempre sabia de um noivo ou noiva que desistira no altar e a tensão crescia com o tilintar das bijus desesperadas. O noivo chegava. Alívio. A noiva. Felicidade geral. “Tá linda!” “O meu vestido eu não vou querer assim!” “Será que ela vai chorar?” “Ele não namorou fulana?”
“Quem diria...” . A marcha encarregava-se de emudecer todas as vozes e o som tornava-se outro: um silêncio cheio de histórias para contar ecoava pela Barra. Amém.

Metalinguagem

A tela espera as palavras que não vêm. Um grito mudo sufoca a garganta. Um choro mudo inunda o peito. Uma alegria muda prende a palavra.
Pensamentos! Tantos que enlouquecem. Agitam. Gritam... Emudecem!
O peito aperta. A lágrima rola. O computador. A tela. O grito. A alegria... Mudos!
Enlouquecer? Agitar? Gritar?... Não!

O verbo a conjugar é escrever.

Íntimo








O sol entra atrevidamente pela janela do quarto. É de manhã.
Vira-se para o canto numa tentativa quase infantil de se rebelar . Não quer levantar! Não quer ver o sol! Não quer ver ninguém!
Mas isso não é possível. Resignada, olha para o relógio, desliga o alarme antes que ele dispare e levanta-se.
À beira da cama, olhando para o chão, pensa em como vai enfrentar mais um dia. Não tem jeito.
Entra no banheiro, olha-se no espelho e sai. Na cozinha prepara um café: com certeza, vai se sentir melhor depois de tomá-lo.
Abre o guarda-roupa, pega uma calça preta, uma blusa preta,sapatos pretos.
Nem percebe que o sol ilumina lá fora um lindo dia cheio de cores.
Toma o café, assiste ao noticiário na TV: as mesmas notícias de sempre. Nada de novo!
Precisa tomar um banho rápido para não sair atrasada. O chuveiro sempre ajuda.
A água desce quente pelo corpo. Sai mais animada agora. Ajeita-se diante do espelho e sente uma leve esperança. Resolve não pôr a blusa preta.
Desce as escadas, cumprimenta o porteiro.
Uma música no carro dá um novo sentido a manhã de montanhas azuis. Faz planos. Novamente uma leve esperança enche seu coração.
Todo mundo corre. Horários apertados, sonos incompletos, preguiça.
Sorri. Brinca com um, cumprimenta outro.
Ninguém sabe do seu coração: “Bom dia!” “Tudo bem?” A resposta é a de sempre. E a alma se aperta. Ninguém sabe.
Na cabeça um monte de planos. O dia corre, a vida corre... A alma se aperta.
Novamente em casa. Os planos arrojados de mudança se calam. A vida segue.
A alma se aperta.