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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Solução




A ansiedade a consumia.
Já havia comido salgados, já havia comido doces, já tinha pensado, já tinha parado de pensar... Nada! Absolutamente nada resolvia aquele incômodo no peito, aquele nó na garganta, aquela ideia teimosa em sua cabeça.
Pensou em sair, mas já era muito tarde e perigoso. Arrumaria os armários! Estava cansada demais para isso. Um filme! Isso! Um bom filme era o remédio! Não conseguiu se concentrar.
Pânico. Caminhou nervosa pelo pequeno apartamento. Ouviu um pouco de música. Respirou fundo várias vezes... Desistiu.
Ligou o computador e na folha virtualmente branca, despejou suas mais profundas angústias.
Estava feito. Dormiu como um bebê.

domingo, 2 de outubro de 2011

Vida real



Abriu a porta, pegou o buquê, certificou-se de que era seu.
Jogou-o sobre a mesa e correu para sala.
Não podia perder a última cena de amor da novela.

domingo, 31 de outubro de 2010

Sozinha - contos mínimos XII



O sono saiu pela janela

A saudade entrou pela porta e pôs-se a ver televisão com a insônia.

Ela, que não expulsara nem convidara ninguém, fez sala.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Enfrentamento - contos mínimos XI




No caminho da menina, uma perereca estática.

A menina chora com medo.

A perereca, impassível, permanece imóvel.

Uma não entra e a outra não sai.

on line - contos mínimos X



Anos depois, voltaram a namorar. Desta vez pela internet. E descobriram que, virtualmente, eram feitos um pro outro.

Constatação - contos mínimos IX


Olhou-se no espelho e viu que abandonara a si mesma!

O choro


Ela permitiu pela primeira vez que o vento desalinhasse seus cabelos e gostou!

Animada, deixou a fria água do mar tocar seus pés. Adorou aquela nova e perturbadora sensação. Também não se importou que o sol lhe tocasse a pele bronzeando-a...



Arrumou-se, voltou ao cemitério. Chorou profundamente diante do caixão.

Estava livre, então!

sábado, 23 de outubro de 2010

Talvez



Tinha chegado a hora. Passaram-se tantos anos. Conheciam-se desde pequenos. Começaram a namorar durante o Ensino Médio, atravessaram juntos os anos de faculdade. O noivado veio junto com a formatura. Entre os preparativos para o casamento a pós. Sempre juntos.

Apenas alguns minutos a separavam do grande momento. Fechou os olhos e mentalmente tentou uma oração. Nada! A porta fechada deixou-a ainda mais tensa. Ouviu a marcha nupcial muito distante. As pernas tremeram e então se apoiou firmemente nos braços do pai. Ele sorriu e discretamente lhe pediu calma... Nada!

A porta se abriu solenemente. A igreja repleta de flores e amigos era uma visão perturbadora!

Um homem de fraque no altar...



Sem entender como, uma música em alto volume invadiu seus ouvidos . Os acordes irritados pareceram uma irônica trilha sonora para aquele momento.

A marcha, a música... Os pés presos no chão, o olhar atônito de todos...



A marcha... A música: “Should I stay or should I go”



Os pés sem saber que ritmo seguir.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O atraso - contos mínimos VIII



Meio dia e meia. Uma hora. Duas.
Isso já era abuso!
Saiu tropeçando na paciência, na tolerância, na esperança... no amor.

Encanto

O cheiro que vinha da cozinha era especial. Só ela fazia aquele prato cheirar tão bem.

O bate papo na sala de visitas mudava. Girava em torno dela, da sua habilidade em encantar a todos, de receber todos com carinho e principalmente de cozinhar tão maravilhosamente.

Era possível ouvir os ruídos denunciando a fome de cada um, mas ninguém se atrevia a ir até a cozinha. Era território proibido. O jeito era esperar.

Secretamente, ela se deliciava: mesmo que não estivesse por perto, era o centro das atenções.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perdida

Acordou. Abriu a janela prestando atenção aos sinais do tempo.Tomou um longo banho bem quente. Colocou uma blusa, calça jeans, um tênis, perfumou-se. Antes de sair, conferiu a bolsa. Trancou a casa.



A chave foi encontrada na lixeira. Os documentos também. Ninguém sabe o que houve.

Não levou nada da confortável vida que tinha. Não disse adeus a ninguém! Desapareceu sob a neblina. Densa, misteriosa....

domingo, 5 de setembro de 2010

O tule preto



Ela se trancou no quarto, triste que estava. Fechou atrás de si a porta.
Aos poucos criou para si um mundo à parte. Mas o sol teimava em entrar pelas frestas da janela todas as manhãs.

Fechou as janelas. Teceu com esmero um vestido longo e preto, de modo que seu corpo não mais se mostrasse.

Lá fora, o tempo encarregava-se de transformar a vida. O vento sempre trazia mudanças. Dentro, tons sobre tons cuidadosamente escolhidos: todos escuros. Rosas de organza grená passaram a enfeitar o jarro. Cortinas marrons cobriram o que restava de luz nas janelas. Em cada nova peça dedicava-se por completo.

No início, o tempo bateu na porta trazendo os ventos de outono convidando-a a olhar para as belas folhas douradas sobre o chão. Nada! Voltou trazendo delicados raios de sol para aquecer os dias frios. Em vão! Paciente, trouxe-lhe flores, folhas, frutos, exuberância! Não adiantou. Em sua última tentativa, chegou com o calor dos afagos, com temporais de alegria, com trovões e raios anunciando festa. Então ela quis sair. Mas quando tirou dos olhos o tule preto, nada enxergou. Mesmo assim tentou. Seus pés, no entanto, não conheciam o caminho para a porta e esta, tanto tempo fechada, tinha virado parede...

domingo, 8 de agosto de 2010

Delírio.




A igreja esta enfeitada
Flores, tapete vermelho, castiçais...
No altar um órgão de tubos tocando a marcha nupcial.
O noivo de meio-fraque, mal cabe em si de tanta felicidade.
A porta se abre. Primeiro dama, pajem e pétalas de rosas. Todos se levantam. Todos querem ver a noiva. “Deve estar belíssima!”
- Dna Neuza! Dna Neuza!
- Agora não! Vou entrar na igreja.
- Está bem, mas não demore muito dessa vez.
-Vou pedir ao padre para ser mais breve.
- Isso! Diga a ele que está na hora do seu banho.
- Tá. Tá bom!
A marcha toca suavemente, bem baixinha, só para Neuza ouvir.

sábado, 7 de agosto de 2010

A decisão




O telefone tocou uma, duas... várias vezes.
Depois foi a vez da campainha, da buzina, do entregador de flores.
A caixa de e-mails superlotou.
Todos sem resposta.
Fechou portas e janelas. Tornou o dia em noite.
Trancada em casa, chora. Relembra e torna a chorar.
Caiu na armadilha: preferiu sofrer a perdoar.