Em câmera lenta.
Sol morno
Vento fraco
Cheiro de terra molhada no jardim do vizinho
Olhar suspenso
Fala suspensa
Bicho cabeludo
Forrrrrrrrrmiga
Espreguiçadeira
s-l-o-w-m-o-t-i-o-n
Súbito,
Invisibilidade
Ninguém via,
mas havia sangue no chão.
Ninguém via,
mas havia um corpo no chão.
Ninguém via,
mas havia uma alma no chão.
Ninguém via,
mas havia lágrimas no chão.
Ninguém via,
mas no chão estava escrito:
fim...
Só que ninguém via.
Ninguém viu.
Ninguém vê.
Não quero pensar
Não quero achar palavras
Não quero encadear ideias
Não quero encontrar o ritmo.
Salve a cacofonia
Viva a dislexia
Que venha a disritmia
Quem sabe a prolixia
(existe?)
Sei lá!
Que me encontrem o vento
O cheiro do mato
O sol morno
O céu claro
A visão das montanhas
De pernas pro ar.
Mesmo sem calção de banho
E mar sem tamanho
No bom sentido da palavra
Eu quero é baianar!
Sapeca
É milho maduro
No fundo da panela
Sonhando ser pipoca
Esperando saltitar
Explodir
Aflorar
No calor escaldante.
É quente
Salgada
Saborosa.
Desperta fome
Acentua desejo
Provoca sede.
Não alimenta.
É vício.
Não precisas ter,
Mas não resistes.
Salivas
Saboreias
Devoras
Pedes bis.
Saciado, sabes:
É teu maior prazer.
A chuva contra minha janela,
suave, delicada,
sussurra segredos de amor perdido.
Chora baixinho sua dor,
escorre pelo vidro enfraquecida.
Não posso parar essa chuva.
Não posso parar seu lamento.
Tento, então, colhê-la.
Com a palma da mão,
ofereço carinho
à chuva que chora.
Seu pranto baixinho
ecoa em meu peito.
Tadinha da chuva,
gemendo baixinho,
espalhando no ar
seu choro de amor.