quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Ciúme




O veneno primeiro contaminou o sangue
Gota a gota, silenciosamente, espalhou-se
Tornou os olhos inquietos
O sorriso desconfiado
As palavras ferinas
Impôs ao peito uma dor cruel
À mente uma loucura infinda
À alegria, desconfiança...
Os passos antes firmes
Vacilaram
As mãos antes solidárias
Claudicaram
O amor antes eterno
Pereceu.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Natural


No verão,


O ribombar das nuvens no céu

Os raios flamejantes no horizonte

As fortes chuvas sobre minha vidraça

A água escorrendo farta sobre as sarjetas

O colorido arco-íris no final da tempestade

O sol que queima o meu corpo impiedosamente

A sombra prazerosa das árvores

Lembram-me de ti



No outono,

A claridade ofuscante do dia

As folhas bailando ao vento

O vento tocando em meu corpo

O azul infinito do céu

O límpido luar sobre as montanhas

Lembram-me de ti



No inverno,

A fina chuva que cai

O intenso frio que machuca

O vinho que embriaga

O fogo que aquece

Lembram-me de ti



Na primavera,

A exuberância das cores

A beleza das flores

O canto dos pássaros

O sol e as gotas da chuva

Lembram-me de ti



Em ti, todos os meus sentidos são tempestades

Enchentes incontroláveis de desejo

Gritos inaudíveis

Faíscas intermináveis de paixão

Calmaria de prazer



Em ti, clareio, esclareço quem sou

Sou livre, solta no tempo

Montanhas de segredos revelados

Límpida vista de mim

Prisma multicor



Em ti, me aconchego

Fujo, aninho-me

Embriago-me de tudo que és



Em ti, sou múltipla

Inédita,

Rara

Inauguração

Recomeço

Sou o que sou.

domingo, 7 de novembro de 2010

Esperança



Arrumei-me toda
Vesti-me de esperança
E fui para a janela
Debrucei-me sobre as flores
Da mais bela jardineira
Afinei minha voz
Cantei a alegria
Expulsei a tristeza
Refleti a luz do dia

Coloquei grinaldas de felicidade
Um anel de diamantes
Ofusquei toda a vizinhança
Fiquei toda vaidosa
Colhi até uma rosa
Vesti-me de esperança

O dia tornou-se noite
E eu brilhava mais que as estrelas
A lua se escondeu
Quando viu minha beleza
Mas meus olhos ficaram cansados
De olhar para o portão
Pra você, o cenário mais lindo
Por você tornei-me a mais bela
Vesti-me de esperança
Mas você não veio.

Romantismo




Meu coração vagueia
Entre o passado e o futuro
Quer mundos que não pode ter
Suspira
Sonha
Evade-se
Ultra-romântico coração
Deprime-se com o presente
Cavalheiresco
Herói
Medieval
Meu coração vagueia
Noturno
Taciturno
Por caminhos de ilusão
Meu coração é vasto
Imenso, infinito
Cabem nele mundos distantes
Imaginários ou reais
Nele há o verso mais bonito
O verso ainda não dito
O amor sofrido
Aquele não vivido
Toda a dor, todos os ais.
Neste hipertrofiado músculo
Cabe todo o universo...
Mas não cabe a razão.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Epitáfio


Dos meus mortos
A lembrança
que mais dói
é a do meu pai.
Seja por sua força
Seja por sua ternura
Seja por sua amizade
Seja por sua sabedoria
Seja por seu desprendimento
Seja por seu amor
distribuído generosamente entre todos...
Seu Sebastião
Seu Tião
Tião.
O enorme coração onde cabia todos
traiçoeiramente o levou cedo demais
Ficou a dor
A saudade
do som da sua voz
gravado em meus ouvidos
da doçura do abraço apertado
marcado em meus sentidos
Dos seus gostos preferidos
Da imensa alegria
de chamá-lo de pai e ouvi-lo responder.


- Pai! A falta de resposta dói demais!