segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Reflexo






Quem é essa que me olha do espelho?
A mulher no espelho não me retrata
Está trinta anos mais velha
Não tem a minha leveza
Não dança como eu
Não sonha como eu
Não ama como eu
Não quer viver como eu
A mulher no espelho é um fake
Um avatar malsucedido
Deixou o tempo passar
Desacreditou
Desanimou
Diluiu-se
Por que ela teima em aparecer no meu espelho?
Por que ela quer ser eu?
A mulher no espelho mente
O verdadeiro perfil
Mora dentro de mim
Flutua leve e solto
Jovem e alegre
Apaixonada por luas cheias
Por barulho de vento
Por colorido de flores
Por beijo de namorados
Por pores-do-sol
Por viagens imaginárias.
Tirem esta mulher de dentro do espelho
Coloquem aquela que mora dentro de mim!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Eu






Contemplo-me de longe
O ideal do ser está longe
Aqui do real,
Almejo
Luto
Caminho
Aproximo
Enquanto isso, a vida se realiza.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Âmago







Ser imperfeito
Pretérito
Deixando escapar presentes
Por um futuro inexistente
Etéreo
Romântico
Ultra
Evasivo
Fugitivo
Perdido
Cheio de chuvas finas
Ventos cortantes
Narizes contra vidraças
Apaixonado por luas
Cheias de promessas
Colhedor de sonhos
Alma aflita
Apertada na esfera mundo. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012










Milagre

Fui entretecido
Ocultado
Protegido
Fui segredo revelado por Ti
No Teu tempo
Sem pressa...
Sou projeto Teu
Sou Teu sopro de vida
Sou barro modelado por Tuas mãos.
Todos os meus dias são conhecidos por Ti
E tu já providenciaste suprimento para cada um deles
Sou porque Tu permites
Sou porque tu me amaste antes
Sou porque Tu és eternamente!


quarta-feira, 21 de novembro de 2012












Visagem





A brisa da manhã invadiu seu quarto. Quase ninguém na rua. Ninguém em casa além dela.
Desceu as escadas suavemente. O cheiro da manhã a entorpecia.
Saiu a caminhar. Cabelos soltos, sonhos leves, pele arrepiada.
Flutuando pelas ruas, não percebia os olhares atônitos. Gozava a manhã.
Andou até ter os cabelos umedecidos pelo suor, a camisola colada ao corpo...
Os olhares cada vez mais atônitos!
Novamente em casa, tomou um longo banho, pôs seus vinis na máxima altura, abriu as janelas e dançou. Sentia-se, então, menos só.
Chovia, quando abriu os olhos. Uma chuva cor de prata inundava seus olhos, iludia seus ouvidos...
Outra vez, as escadas, a porta, a rua...
Alguns guarda-chuvas davam o tom sério à manhã de prata, enquanto os olhares transpareciam prazer.
A manhã tornava-se bordada de renda.
De braços abertos, ela experimentava a vida trazida pelo novo dia. Os guarda-chuvas a emolduravam. Silenciosamente, destacam sua beleza.
Comprou flores, trocou os lençóis, cuidou do jardim. Mais tarde recitou seus poemas favoritos em alta voz diante do espelho. Riu e dançou. Era uma menina! Uma estudante travessa no seu quarto de segredos.
A manhã surpreendeu-a nua sob os lençóis bordados.
Um arrepio! Seus pés sentiram a aspereza da calçada. Ela vibrava. O contato era surpreendente. Arriscou mais um, mais outro. E passo a passo cruzou a praça sob olhares novos e antigos: emudecidos, estupefatos. Era linda!
Era menina, moleca, mulher. Nua! Envolta na densa neblina daquela manhã.
Tudo a contemplava.
Quando ele chegou de viagem, encontrou-a diferente. Sem amarras, sem medos, sem limites...
Encantou-se. Amou-a ainda mais. Pelas ruas, ostentava a mulher com um sorriso de canto a canto.
Os olhos da cidade agora se cruzavam, segredando o desejo de vê-lo novamente partir. Invejando-o cúmplices.




domingo, 12 de agosto de 2012








Prisão

O sol na vidraça. As mãos geladas, os pés gelados.
Quase meio-dia.
O dia pede cobertor, proteção contra o frio.
A vida também.
Tenta se aquecer, fazer alguma coisa que anime. Não dá.
O sol insiste contra a janela, mas perde.
A vida insiste contra o desânimo, mas perde.
Só resta o cobertor: proteção e esconderijo.
Lá fora há vida. Todos, ao sol, aquecem-se.
Aqui frio.
Frio nas mãos, nos pés, na pele, na alma...
Sob um cobertor de solidão, a vida adormece.
E o sol radiante... lá fora.


sexta-feira, 30 de março de 2012





Egocentrismo


O alarido invade meus ouvidos ofendidos. Quero silêncio. Não tenho.
Ainda é manhã e vespertino. Talvez até anoiteça, madrugue. Não sei.
O barulho continua. Eu continuo. Queria poder parar os dois. Dormir? Acho que não. A vida me chama. Só a queria um pouco mais silenciosa. Estou sensível! A poeira me incomoda o nariz, a claridade os olhos, o barulho... Maldito!
Quero silêncio de música escolhida. Quero o silêncio de livro preferido, quero o silêncio de amigos queridos por perto, quero o silêncio de estar em casa, em família. Quero o silêncio da agenda fechada. O silêncio de sonhar de olhos abertos, de escolher o que contemplar, quero o silêncio do sol de outono sobre a pele...
Quero discrição, segredo, intimidade.
Quero esquecimento.
Quero lembrança.
Quero de novo o mesmo.
Quero! E-go-ís-ti-ca-men-te!
Um outro lugar que não seja aqui.