
No final da rua onde morava havia uma pracinha que servia de retorno. Não precisava, mas foi até lá, contornou a praça numa velocidade um pouco acima do necessário: risco calculado,claro, mas agora, era também excelente motorista! Colocou o carro na garagem. Entrou em casa.
O relógio foi o primeiro a ser retirado. Os sapatos. “Odeio salto!” O cinto. “Que alívio!” jogou-se no sofá, ligou a tv. Ainda era cedo para assistir aos noticiários. A moça da faxina estivera na casa. Tudo cheirava a limpeza. Recolheu a pequena bagunça que fizera ao entrar. Subiu para tomar um banho. Sobre a cama suas roupas limpas e passadas. “Depois do banho, eu guardo.” Olhou em volta fiscalizando a arrumação. Um bilhete. Havia um bilhete sobre a cômoda. Pegou-o, caminhou até a bolsa, então colocou os óculos e leu. “Dona Mônica ligou um tal de seu Alfredo. Deixou este número. Pediu que a senhora ligasse”.
Um frio no estômago. “Ligar?!” Ficou nervosa. Será que ele a convidaria para sair? Correu para o banheiro. Pensaria melhor no chuveiro.
Entrou no banheiro tentando manter sua rotina, mas um súbito desejo trouxe de volta lembranças sufocadas. “Mais essa agora! Há quanto tempo...” Sorriu. Não ligou o chuveiro. De volta ao quarto, apanhou um cd: Djavan. Estava escondido sob um amontoado de outros CDs. A capa, a foto...Quanto tempo... Pegou o pequeno rádio guardado no armário. “Será que ainda funciona?” Lembrou-se da banheira.
Colocou tudo sobre a cama e resolveu encher a banheira. Água bem quente! Procurou no pequeno armário de madeira alguns sais. Sentiu medo de que lhe fizessem mal. Tanto tempo sem uso. Preparou o próprio banho como um ritual quase sagrado. Decidira curtir toda aquela saudade, reviver todo aquele desejo. Tudo pronto. Quase. Pegou o roupão cheirando a guardado. Ia levá-lo quando avistou o outro. Pegou-o também. No bolso, a marca de sua desastrosa tentativa de bordar: uma torta letra A.Quase podia ouvir os risos da noite em que mostrara o bordado para ele. Quase podia sentir os abraços, os beijos, os pedidos de desculpas dele diante do ar de decepção dela.Nunca mais pensara naqueles momentos, nunca mais tivera tanta felicidade! Sufocou toda e qualquer tentativa de seu coração voltar àqueles tempos. Estranhamente hoje, queria recordá-los. Estava cansada. Cansada de não sentir.
Apanhou o roupão com a letra A. “Quem sabe ainda não haveria nele o mesmo perfume?” Ligou o rádio, colocou o cd... mergulhou na banheira cheia de água quente e de saudades.
Chorou. Copiosamente, chorou. Era a primeira vez que chorava. Não tinha ousado fazê-lo nem no momento da separação. Mergulhou novamente. Sentiu por não ter apanhado um vinho para comemorar aquele momento.
No Cd, sua música favorita.Na banheira uma tempestade!
Fechou os olhos e se deixou levar. Queria expurgar tudo aquilo. Queria ser gente de novo.
Riu. Tudo isso, porque um desconhecido pediu que ela ligasse. “O que havia naquela voz que a tinha feito desmoronar depois de tanto tempo?...”
A música termina, a água esfria. Envolve-se no roupão. O perfume não está mais lá, porém todo o seu corpo o sente.
Volta a música no cd e dança com suas lembranças. “A. gostava tanto dela...” repetia-lhe os versos como se os tivesse feito especialmente para ela. “Que felicidade era aquela?” “Será que realmente tudo aquilo existiu?”
O telefone tocou. Estremeceu. Era sua mãe. Não sabia se sentia alívio ou ficava decepcionada. A mãe perguntou o que acontecera, por que ela estava diferente. Desconversou. Não convenceu. Falaram por quase uma hora. Despediram-se. “Cuide-se, filha!” “Tá bom.”
Deitou-se. “Tudo aquilo acontecera realmente com ela?” Encolheu-se e dormiu. Não sonhou. Dormiu feito criança. Leve, despreocupada, feliz.
Acordou com o sol rasgando as cortinas. Tinha perdido a hora. Não se lembrara de colocar o relógio para despertar. Na verdade nunca precisara dele, sempre acordara sozinha.
Apesar do atraso, arrumou-se com cuidado. Prendeu os cabelos, colocou um perfume, maquiou-se, colocou um vestido! Telefonou avisando que se atrasaria. Pegou um cd de uma banda dos anos 80. No caminho para o trabalho, parou para tomar um capuccino. Combinava com o frio, com o vestido de lã importado, com o casaco,com as botas. Combinava com ela! Percebeu que havia passado tempo demais magoada. Queria mudar. Tinha uma bela história! Tinha por que sentir saudades! Tinha por que se sentir feliz! Se não tinha dado certo, paciência. Não guardaria mais mágoas.
No trabalho, todo mundo notou algo diferente nela. Não contou nada a ninguém. Sorriu para todos que perguntaram o que havia acontecido.
O dia passou tranqüilo. Na volta para casa comprou flores: margaridas!
Ligou. Do outro lado a voz do Alfredo respondeu. Disse quem era. Ele perguntou por que ela não ligara antes. Ela não respondeu. Ele a convidou para jantar e sugeriu um restaurante chinês. “Você também gosta de comida chinesa?” perguntou sem pensar. “Muito!” Ela achou melhor encontrá-lo no restaurante. “Às 9?” “Ok!” Estava feito. Não sabia bem o motivo, mas sabia exatamente o que vestir. Colocou a roupa sobre a cama, pôs a banheira para encher, pegou o cd.
“Margarida...Mônica, Alfredo...A. Coincidência...” pensou. O manobrista levou o carro. O restaurante ficava numa antiga casa de dois andares. A decoração relaxante tinha elementos modernos e tradicionais chineses. Entrou. Havia poucas pessoas àquela hora. Alguns casais e uma mesa com duas mulheres conversando animadamente. Sentiu medo: “se ele não viesse?” Mal terminou o pensamento, o maitre aproximou-se, chamando-a pelo nome. Sorriu - um pouco assustada- frequentara aquele restaurante por muito tempo, mas era impossível que o maitre se lembrasse dela. Ela mesma não sabia se já o tinha visto antes. Educadamente, ele a conduziu ao segundo andar. Havia apenas um casal sentado no fundo do salão. Onde estaria ele? Novamente o maitre. Desta vez indicou-lhe uma mesa próxima a uma parede de vidro. Dela via as luzes da cidade, o movimento dos carros e uma encosta repleta de bromélias. O cenário era lindo! Não havia lua. O céu estava salpicado de estrelas. Ela adorava o céu de outono. "Tão límpido!" Lembrou-se de outras vezes em que estivera naquele mesmo lugar. Um nó apertou sua garganta. Talvez não devesse ter aceitado jantar ali depois de tanto tempo. Olhou em volta e reparou que somente sua mesa tinha flores: margaridas! Sorriu. “Ele é espirituoso!” Um garçom se aproxima e pergunta se ela quer algo. Responde que não. Olha para o relógio e sente-se ridícula, por quanto tempo ficaria esperando? Pensou em ir embora, contudo antes que tomasse qualquer atitude, notou alguém de pé ao seu lado.
Emudeceu. Tudo o que pensara durante o dia, todas as promessas que fizera para si mesma, caíram por terra. Tentou se controlar, dizer alguma coisa. Não conseguiu encontrar ar suficiente para qualquer ação.
Era uma tonta, idiota e ainda por cima não conseguia falar!
Como não percebera? Como não reconhecera? Uma voz carinhosamente interrompe sua tempestade interna. “Calma! Eu explico tudo.” Como se soubesse o que ela sentia naquele momento. Rapidamente tentou fazer um ar de desinteresse, de naturalidade. Era ele! Seus olhos não mentiam. Era ele! Fazia cinco anos. Lembra-se das brigas dos últimos momentos juntos. Da dor que sentiu, quando ele foi embora.
Do sofrimento dos primeiros meses, dos primeiros anos... Tinha conseguido sobreviver. Tinha crescido no trabalho. Era bem-sucedida, mas nunca se curara daquele adeus. Agora que resolve recomeçar, ele ressurge. “Isto não está certo!” Novamente foi interrompida. “Calma!” “Por que ele pede tanta calma?" Como ele sabia o que estava acontecendo dentro dela? Levantou-se. Iria embora. Tudo aquilo era demais. “Alfredo!”, “Margarida!” “E a boboca acreditando em tudo”. O toque. Ele pega em sua mão e pede que ela fique. Nunca resistira ao seu toque. “Que ódio!” Sentou-se. O mesmo perfume... Estava decepcionada. Tinha imaginado uma noite agradável. E se descobrira fazendo papel de boba. Olhava insitentemente para fora. A paisagem havia mudado. Tudo havia mudado. O toque... Ele pega suavemente em seu queixo e volta o rosto dela para si.Tão próximo assim, seu perfume a desconcerta. “Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia como fazer.” Parecia que ele ia chorar. O coração dela se apertou.
“Liguei pra você...quando ouvi a sua voz, não soube o que dizer e inventei aquela história maluca. Me senti ridículo inventando o nome Margarida! Liguei de novo. Queria ouvir novamente a sua voz. Não me contive. Saber que você estava tão perto... Depois achei que seria uma maneira de me aproximar. Dei o nome de Alfredo. Pensei que você pudesse ter alguém.Você sequer reconheceu a minha voz... Fiquei confuso. Telefonei pela manhã pra ter certeza de que nenhum homem atenderia. Adorei ouvir você mal-humorada!” Ela o interrompe.“Por que ninguém me disse que tinha voltado? Estavam todos me fazendo de boba?” “Não!” Ainda não estive com ninguém! A primeira vez que liguei, estava no aeroporto. Agora estou num hotel. Você é a primeira pessoa a saber que estou aqui. Não queria falar com ninguém antes.” Ela sabia que ele era sincero.Nunca mentia. Isto sempre foi o que mais admirou nele. “Por que você voltou? Acabou o mestrado? Não quis continuar os estudos? Sua namorada foi embora?” A gargalhada... Como tinha sentido, por não ouvir mais aquele jeito escancarado de rir. “Terminei o mestrado e tenho indicação para o doutorado. Consegui outra bolsa. E não tive namoradas. Nada que durasse mais de uma noite.” Silêncio.
O garçom trouxe o cardápio, aproveitando que havia calma. Ela não queria nada. Perdera a fome. Ele insiste: “Coma ao menos um rolinho primavera. Você sempre gostou tanto...” Lembrou-se do dia em que subitamente resolvera almoçar num restaurante chinês próximo ao trabalho. “Será que já era um sinal?” Assustou-se ao se dar conta de que as últimas mudanças em sua vida tinham acontecido depois do telefonema. “Você está linda! Sempre ficou linda de azul! Esse tal de Alfredo está perdido, coitado.!” Riram. Ele tocou seus cabelos... Ela se conteve. Sob a mesa cruzara as pernas. Sempre fazia isso quando não conseguia dominar a situação.
Olharam-se fixamente.Tocaram-se profundamente! Ainda há muito para ser dito, mas seus corações já descobriram o mais importante.
Tomaram vinho. Celebraram!
Ela ainda não sabe, mas se pedir, ele não volta para fazer o doutorado. Ele não faz idéia de que se quiser, desta vez ela deixa tudo e vai com ele.
Vinho além da conta...
No rádio do táxi, Djavan! A noite tornou a ser linda!
Belo conto. Bonito encontro. Lindo texto.
ResponderExcluirValéeria que linda história . Você não ta providenciando um livro não ? pelo amor de Deus , quanto Talento :O
ResponderExcluirTa muito lindo, li escutando 'se - djavan' AHHAAH'
ResponderExcluirNossa, isso ta lindo demais;
eeu nãosei o que dizer, chorei lendo.
è tão lindo, e o fim me fez querer ler mais e mais, sei que é tolo dizer isso porque é extamante a intenção, mas sei lá.
adorei mt mt !
lindo !
aaa, eu me lembro de você falando que estava trabalhando num conto no ano passado, vc falou dos telefonemas, mas nunca imaginei ser algo tão bom.
PARABÉNS, e segue o conselho da Lellis e escreve um livro, guria!
Adorei! A Barra continua igual...
ResponderExcluirPFA
Eta...Essa Clarice que não nos deixa em paz...
ResponderExcluirAmo leitura sou simplismente apaixonada!!!!
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