domingo, 31 de julho de 2011

De volta às aulas.


Prof!
Fessora!
Tia!
Há um coral pronto para reiniciar
Vozes desafinadas
Um tom para cada um
Um ritmo para cada um
E um maestro:
Disciplinador
Condutor
Educador
Indicador
Harmonizador...
PROFESSOR!
O concerto continua.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Férias

Não quero pensar
Não quero achar palavras
Não quero encadear idéias
Não quero encontrar o ritmo.
Salve a cacofonia
Viva a dislexia
Que venha a disritmia
Quem sabe a prolixia (existe?)
Sei lá!
Que me encontrem o vento
O cheiro do mato
O sol morno
O céu claro
A visão das montanhas
De pernas pro ar.
Mesmo sem calção de banho
E mar sem tamanho
No bom sentido da palavra
Eu quero é baianar!
 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Renata



A sala refletia a indiscreta luz do outono. Perturbava a vista, o olhar. A limpeza era tanta que parecia irreal. O branco absoluto mostrava-se azulado pelo dia. Aquilo a incomodava!

Percorria o cômodo em busca de algo fora do lugar, de alguma penugem atrevida, de uma partícula que fosse de pó. Nada!

As luvas eram emboladas entre os dedos pelo esfregar nervoso das mãos. Tornava a olhar. Algo tinha que está fora do eixo!

Quarto, banheiro, cozinha, corredor.

Cama, cômoda, cortinas, sofás, quadros, tapetes.

Pias, vidros, pratos, panelas, toalhas... Im-pe-ca-vel-men- te arrumados.
Era a felicidade completa! Era o sonho realizado! Conseguira...

Tornou o olhar.

Não fazia sentido tudo aquilo. Sentia-se aprisionada. As luvas de repente apertavam.

Através do vidro, o sol clareava tudo. Ofuscava tudo. Fazia tudo mudar. Inclusive ela.
Pensou em comer algo. Atrapalhou-se com as embalagens que embalavam outras embalagens.
Tomaria um banho. Toalhas embaladas, sabonetes embalados. Tupperwares por todos os lados. Organizadinhos, Perfeitamente arrumados.
Não sabia o que fazer. Faltava-lhe ar!

Tirou a capa dos chinelos, tirou os chinelos, tirou as luvas, tirou a roupa, abriu a porta e saiu. Nua! Livre! Alcançou a mangueira no jardim, pisou na grama e tomou um banho frio, com os pés mergulhados na lama, sob o morno sol de outono.
Era a felicidade completa! Era a vida arrepiando-lhe a pele!

sábado, 16 de julho de 2011

Uma e outra



A sexta-feira é santa! Levanta-se às seis. A casa está em silêncio. Apóia-se na velha bengala, caminha até outro quarto e bate com o cajado na porta.
- Ta na hora!
Quem abre é o filho. Em seguida, a nora sai do quarto sem dizer palavra.
Seus noventa anos lhe dão direitos que ela cultiva desde sempre. Não se abala com o mau humor da outra.
A água para o banho aquecida no fogão a lenha como deve ser! A bacia de cobre é colocada no chão do banheiro e salpicada com pétalas de rosa branca. Experimenta. Reclama. Torna a experimentar.
O céu de abril é claro, sem nuvens. Nas plantas do quintal, uma fina neblina se dissipa e revela o orvalho dormindo sobre as folhas. Uma manta de crochê cobre a velha cadeira de balanço, violetas várias enfeitam a jardineira da imensa varanda. O piso de vermelhão brilha.
Toma seu banho, veste-se de linho azul, cuidadosamente passado. Reparte os cabelos em duas tranças presas num coque. Aprova a imagem no espelho e sai.
Uma farta mesa de café da manhã está posta: canjica, bolo, café preto, aipim, batata doce, milho cozido. Certifica-se de que tudo esta a seu gosto, troca os pratos de lugar.
O barulho que vem de fora anuncia que eles estão chegando. Apressa-se. Precisa recebê-los sentada em sua cadeira. Um a um.
- Sua bênção.
A mão estendida espera um beijo e uma reverência.
- Deus te faça feliz!
Eles são muitos, um séquito! Filhos, netos, bisnetos e afilhados. Ela, a Senhora.
Em torno da mesa a oração em voz miúda, porque não é dia de festa.
Olha para a nora. Os pratos não estão no lugar! Recebe de volta o mesmo olhar implacável.
A canjica é servida com amendoim torrado em casa, no fogão a lenha, como a Senhora gosta! Ela mesma fora à cidade escolhê-los para a ocasião. Escolhera também a canjica! Era preciso ciência pra isso. Apesar do cansaço da idade, se não fosse por ela...
Todos discretamente olham para a nora que retribui o olhar com uma altivez inexplicável.
O café termina, vão embora, mas voltam para o almoço de Páscoa, quando seguindo a tradição comerão um peru... do quintal, é claro!


A Senhora balança na sua cadeira de rainha. Absoluta!
A nora prepara a comida para perus e galinhas: amendoim e canjica de primeira comprada pela sogra.


A Senhora balança na sua cadeira de rainha. Absoluta!
A nora termina de enterrar o peru caipira e o substitui por um de supermercado que é mergulhado no incomparável tempero de sua sogra.


As duas na varanda sem dizer palavra...
Quase absolutas.


Farinhas do mesmo saco!

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Constatação


Em vão de porta
Prendo o dedo
Em vão de janela
Entreolho
Em vão de escada
Descanso
Em vão, olho pra trás
A vida de repente passou

Entre os vãos de meus dedos.

domingo, 3 de julho de 2011