sexta-feira, 29 de abril de 2011

Felina



Basta!
Eu confesso
Chega de tanto disfarce
De tanta compostura
De tanta mancha
Pra encobrir o descoberto
Pra sufocar o gritado
Não quero você
Quero o prazer que mora em ti
Não quero você
Quero o cheiro que vem da tua pele
Não quero você
Quero o gosto da tua boca
Não quero você
Quero o toque da tua mão
Não quero você
Quero o sal do teu suor
Basta!
Não sou menininha
Não sou boazinha
Sou ambiciosa
Ajo premeditadamente
Planejo cada próximo ato
Cada próximo passo
Sou interesseira
E meu maior interesse
É explodir de prazer em teus braços.


Só o que eu quero é você inteiro em mim e eu completa em ti!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Retórica


Pergunta:


- Existe plástica para remover cicatrizes da alma?



Outra pergunta:

 
- Por que, se os olhos não veem, o coração continua sentindo?




Mais uma:


- Se saudade só existe no Brasil, mudando de país ela vai embora?




quarta-feira, 27 de abril de 2011

Insossa





Sábia
Sensata
A mente recusa
O que pede o coração.


Prudente
Temerosa
Espera conscientemente
Passar o tempo


Só por hoje
Não enlouquecer
Só por hoje
Não apaixonar
Só por hoje
Não mergulhar na emoção
Só por hoje não errar...


Sábia
Sensata
Sem sal!

sábado, 23 de abril de 2011

Cristina


Dezenas de pessoas sentadas na pedra com olhos atentos diante do mar. E ela só. Alguns têm binóculos e parafernálias tantas riem conversam têm os olhos atentos na linda tarde desenhada. Impossível ser infeliz! Possível pra ela. O mar se agita e bate nas pedras espuma respinga refresca a pequena multidão. Só ela fria. Intacta. Imóvel. Congelada de dor.

O espetáculo começa uma densa cortina esconde o sol num ritmo lento e os olhares em suspense se sentem privilegiados de lá estar. Durante e ao fim da sessão tão esperada espocam os flashes poesia são feitas amores confirmados abraços são dados e ela só. Um violão geme todos acompanham formam um coral de estupefação e agradecimento em frente ao mar em cima da pedra ouvindo o barulho das ondas ao fundo. E ela só.

Quando o sol novamente brilha gritos aplausos ecoam no ar.

No fim de tudo todos se vão e ela sozinha imóvel e intocada envolta em dor abre os braços pro nada e mergulha no mar. Sem aplausos, sem flashes, sem público. Só! como sempre foi.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Veneris dies




Sexta-feira!
Todos os anúncios
Todos os prenúncios
Todos os desejos
Contidos na caixa
Na cesta
Na banca da feira
Da sexta.
É só escolher
Qual é o seu?

quinta-feira, 21 de abril de 2011

XX - chuva no sertão

Arte do livro Asa Branca feita com nanquim e guache - Maurício Pereira


Cai do céu a bênção
Cheiro de terra molhada
Torna lama o pó

terça-feira, 19 de abril de 2011

2011




Pelas vítimas da chuva

Escutai a nossa prece


 
Pelas vítimas da dengue

Escutai a nossa prece


 
Pelas vítimas do terremoto

Escutai a nossa prece


Pelas vítimas do tsunami

Escutai a nossa prece


 
Pelas vítimas do tornado

Escutai a nossa prece


 
Pelas vítimas de Realengo

Escutai a nossa prece


 
Pelas vítimas do ódio

Pelas vítimas da política

Pelas vítimas do abandono

Pelas vítimas da mentira...



Escutai, Senhor, a nossa pressa!




domingo, 17 de abril de 2011

Terezinha




A primeira vez doeu muito. Tive vontade de gritar, mas me calei. Senti tanta vergonha!

Pensei em me mudar, sair da cidade. O tempo foi passando e como não tinha mesmo pra onde ir, resolvi esquecer. Começar de novo pareceu-me a melhor solução.

Esmerei-me em cuidar de tudo. Não queria dar motivos. A casa sempre limpa, cheirosa, a comida bem feita, a roupa limpa e passada com capricho. Tudo perfeito. Não havia motivos. Mas mesmo assim não evitei uma segunda vez.

Fiquei alguns dias trancada em casa, até que as marcas sumissem. Até que ninguém mais além de mim, pudesse vê-las.

Pensei muito e concluí que a culpa era minha. Não estava sendo suficientemente boa. Tinha que procurar melhorar. Claro! Pensei novamente em ir embora. Não fui. Faria de tudo para que não acontecesse de novo. Seria mais eficiente desta vez.

Fiz uma dieta. Queria estar mais bonita, mais atraente. Quem sabe assim você se acalmaria... Não adiantou.

A terceira vez não tive como esconder de ninguém. As marcas eram tantas, o sangue era tanto que gritei. Reuni todas as minhas forças e gritei. Uma multidão apareceu pra me socorrer. Não entendi muito bem. Era como se eles já soubessem, como se apenas estivessem esperando meu grito.

Ouvi alguém dizendo “Tadinha! Tão boazinha, tão caprichosa... Apanhar desse jeito!”

Minha maior dor é nunca ter ouvido de você um pedido de desculpas. Não perceber em você arrependimento.

Por que não fugi? Por que não gritei antes? Não sei. A vergonha era tanta...

sábado, 16 de abril de 2011

Odete



Nunca fui mulherzinha. Sou esporrenta, não levo desaforos pra casa. Se gritam comigo, falo mais alto. Se quero alguma coisa, vou atrás. Em criança, chamavam-me de moleca, mulher-macho. Mais que nada! Gosto de homens. Principalmente dos fortes, que sabem segurar uma mulher. Conheci um há muito tempo. Alto, sem frescuras, largadão, sandálias nos pés. Sempre de bermudas. A gente se entendeu muito bem. Futebol, cerveja, churrasco, cama. Ríamos de tudo. Éramos parceiros em tudo. Ficamos assim, repartindo a vida por quase trinta anos! O idiota morreu e me deixou aqui.

Tem problema não. Sou de encarar, não de fugir. Resolvo tudo com meia dúzia de palavrões: tristeza, saudade, solidão, desesperança... Não tem tempo ruim.

Estou meio preocupada, ultimamente quase só falo palavrões. Tenho até me esquecido das outras palavras...

Dane-se! A vida continua. Esse negócio de sofrimento não combina comigo. Não sou mulherzinha! Porra!

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Cristal




Sou mulher. Às vezes minto. Não porque goste ou não tenha caráter, mas por absoluta falta de opção. Como dizer a verdade se ela vai magoar, ferir? Como dizê-la sem escandalizar a todos e a mim mesma? Sem preparação alguma, tornar-me outra pessoa? Apresentar uma outra face de mim?
Sempre tive sonhos previsíveis, aceitáveis, conhecidos. Que personagem é esta que agora me invade e quer mudar tudo que sei de mim, trocar meus planos por outros?
Minto. A verdade é por demais devastadora, contraditória, infame!
Minto. Não quero conhecer a outra.
Minto. Não quero ser outra.
Sempre acreditei que era assim: bonitinha, comportada, amiga, companheira... Medíocre!
Minto. Espremo a outra com todas as minhas forças para dentro de mim. Fecho-lhe a boca, tolho seus sentimentos, crio um mundo em que ela não pode respirar. Mato-a sem dó, todos os dias.
Minto, mas venço! Não sou assim tão frágil! Iludo todo mundo, iludo a outra...
Iludo a mim


segunda-feira, 11 de abril de 2011

XVIII - Chuvinha



A chuva fininha
Que cai lá fora cochicha
Um novo segredo.

Sentimento

Quero ser brega!
Cantar amores rasgados
Em rimas previsíveis
Fazer combinações esdrúxulas
Decorar o quarto com coraçõezinhos de pelúcia
Desenhá-los flechados
Fazer coleção do “Amar é”
Ligar pra você anonimamente nada dizer

Escrever cartas de amor com marcas de batom
Ouvir música no rádio e chorar aos prantos
Escolher uma canção só pra nós dois.
Correr no meio da rua e me atirar em seus braços
Escrever em uma faixa: Eu amo você!

Dizer que estou “na fossa” se você não aparece
Namorar todos os domingos, quintas e sábados.
Sentar no sofá pra ver filme de amor na tv
Caminhar de mãos dadas na praça apanhando florzinhas
Desenhar num coração o seu nome e o meu.

Ser brega
Só pra gritar aos quatro ventos
Só pra viver intensamente
Este meu louco amor.

- Será que só eu sou assim?

domingo, 10 de abril de 2011

Na onda.


Subo
Desço
Crista!

Tentativa
Erro
Crista!

Razão
Emoção
Crista!

Tempo acima
Tempo abaixo
Tempo de crista!

Se mais em cima
Se mais embaixo
Não sei!
Surfo.

sábado, 9 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sentido da dor -

(Aos pais de Realengo)


Dores dos outros
Dores iguais
Dores diferentes
Mesmas dores
Dores machucam sempre.


O corte pequeno
O profundo corte
O tapa de leve
A bofetada
A dor do adeus
A da chegada
Dores profundas na mente


A dor do parto
Quase sempre esquecida
A dor da lida
Do dia-a-dia
A dor da bronca merecida
A do castigo que se deve
Dores machucam sempre


A dor da tragédia
Incompreendida
Da fatalidade
Surpreendida
Da bala achada
Na filha perdida
Dores profundas na mente


Do desespero da verdade
Da incompreensão
Da insanidade
Do choro contido
Do choro gritado
Da estupefação diante do fato
Dores machucam sempre


A dor de ser
De ser pai
De ser mãe
Sem mais o filho ter
Dores machucam sempre
Dores profundas na mente!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Delito


Corpo tatuado
Bordado
Marcado
Ferido.
Impressas por suas mãos
Cicatrizes apaixonadas
Molde de um amor infinito.

domingo, 3 de abril de 2011

Prazer

Andréa Penteado - Aquearelas
Dorso esguio
Pele parda
Sinais aqui e ali
Presença plena!
Você ao meu lado
Dormindo tranqüilo
Em noite serena.